6.5 Filosofia da Arte — Compor formas e mundos

A arte é convolutiva porque envolve o passado, reorganiza o presente e propõe modos possíveis de futuro, sempre à procura de rostos. Não se limita a representar um mundo já existente: participa na composição dos mundos em que podemos habitar.

«Metáfora significa, precisamente, transporte. Esse é o método de Hermes: exporta e importa, portanto, atravessa; inventa e pode enganar-se, devido à analogia; perigosa e mesmo, em rigor, proibida, não se conhece, contudo, outra via de invenção.»

Michel  Serres

"A arte é a imposição de um padrão à experiência, e o nosso prazer estético é o reconhecimento desse padrão."

Alfred N. Whitehead

«Reconhecemos aqui a forma clássica dos cientistas lidarem com filosofia, política e arte: o que eles dizem pode ser agradável e interessante, mas não tem relevância cosmológica porque só lidam com elementos subjetivos, o mundo vivido, não o mundo real”.» [1]

Bruno LAtour

6.5 Filosofia da Arte — Compor formas e mundos

A obra de arte não é forma imposta a matéria inerte. É um acontecimento relacional no qual materiais, técnicas, gestos, símbolos, memórias e expectativas se organizam em unidade provisória. A forma é conteúdo sedimentado, e o conteúdo só se torna comunicável através de uma forma. Os materiais oferecem possibilidades, resistem às intenções e participam na constituição da obra.

O conteúdo de verdade de uma obra não se reduz à intenção do artista nem à reprodução fiel da realidade. Surge da relação entre criação, obra, contexto e receção. A intenção do artista é mediação importante, mas não soberana: a obra pode dizer mais, menos ou outra coisa do que o seu autor pretendeu.

A arte possui ainda uma dimensão institucional. Oficinas, academias, Igrejas, cortes, mercados, museus, escolas, crítica, indústrias culturais e plataformas digitais condicionam o que pode ser produzido, conservado, mostrado e reconhecido como arte. A história da arte é, assim, a história convolutiva das relações entre formas, materiais, poderes, técnicas e públicos.

6.5.1 Arte ritual e formas arcaicas — Tornar presente o invisível

Nas sociedades arcaicas, não existe a arte como domínio autónomo. Imagens, máscaras, danças, monumentos, pinturas e objetos participam em ritos, narrativas e formas comunitárias de habitar o mundo. A imagem não representa simplesmente uma realidade ausente: pode tornar presente um antepassado, uma divindade, um animal, uma força natural ou uma memória coletiva.

A autoria individual nem existe. Importam a eficácia ritual, a transmissão da tradição e a relação entre vivos, mortos, animais, território e cosmos. A forma artística nasce já como mediação entre mundos.

6.5.2 Antiguidade clássica — Imitação, proporção e presença

Na Grécia, a arte é pensada através da technē e da mimēsis. Platão suspeita da imagem por esta se afastar da verdade; Aristóteles reconhece-lhe uma função cognitiva e afetiva, mostrando que a imitação permite compreender ações, possibilidades e conflitos humanos.

A escultura procura tornar presente o corpo ideal; a arquitetura articula proporção, função e ordem cósmica; a tragédia relaciona o indivíduo, a cidade, os deuses e o destino. Em Roma, a arte acrescenta funções políticas, memoriais e imperiais. A forma não é apenas beleza: é organização visível de uma determinada ordem do mundo.

6.5.3 Antiguidade Tardia e idade medieval — Símbolo, ícone e participação

Na Idade Média cristã, a imagem não vale principalmente pela originalidade do artista, mas pela sua capacidade de abrir o visível ao invisível. O ícone não é apenas uma representação: é entendido como mediação e presença. A catedral reúne arquitetura, escultura, vitral, música, palavra e liturgia numa experiência coletiva.

A matéria — pedra, madeira, ouro, pigmento, luz — adquire valor simbólico. O artista permanece frequentemente anónimo porque a obra pertence a uma tradição, a uma comunidade e a uma finalidade religiosa.

A arte islâmica desenvolve outras relações entre visibilidade e transcendência através da caligrafia, da geometria, do ornamento e da arquitetura. A Idade Média não constitui, portanto, um período artístico homogéneo, mas uma pluralidade de regimes de imagem e de presença.

6.5.4 Renascimento — Perspetiva, indivíduo e invenção

O Renascimento reorganiza a relação entre o homem, a natureza e a representação. A perspetiva geométrica constrói um espaço visual ordenado a partir de um ponto de vista. O corpo humano torna-se medida, problema anatómico e lugar privilegiado da beleza.

Afirma-se progressivamente a figura do artista individual, dotado de engenho, estilo e capacidade inventiva. Contudo, a criação continua dependente de oficinas, aprendizes, encomendas religiosas, poderes políticos e mecenas. O génio renascentista não trabalha isoladamente: emerge de uma rede de técnicas, instituições e expectativas sociais.

6.5.5 Barroco e Classicismo — Movimento, persuasão e ordem

O Barroco transforma a obra num dispositivo de envolvimento. Movimento, luz, teatralidade, ilusão e excesso procuram afetar o corpo do observador e integrá-lo na representação. A fronteira entre obra, espaço e público torna-se instável. Pintura, escultura e arquitetura compõem ambientes totais.

O Classicismo procura, pelo contrário, regular a criação através da clareza, da proporção, da hierarquia e das regras. Mas Barroco e Classicismo não são simplesmente desordem e ordem: constituem diferentes formas de relacionar emoção, poder, natureza, razão e representação.

6.5.6 Iluminismo e nascimento da Estética — Gosto, sublime e autonomia

No século XVIII, a Estética constitui-se como disciplina filosófica. O gosto, o belo, o sublime, o génio e o juízo estético tornam-se problemas autónomos. A arte começa a separar-se das funções religiosas, cortesãs e artesanais que anteriormente a enquadravam.

Aparecem os museus públicos, os salões, a crítica de arte e um novo público de cidadãos-espetadores. A autonomia liberta a criação, mas também pode isolar a arte da vida comum. Nasce uma tensão decisiva entre a obra como fim em si mesma e a obra como intervenção histórica e social.

6.5.7 Romantismo e Realismo — Expressão e mundo social

O Romantismo concebe a obra como expressão de uma interioridade singular. O artista aproxima-se da figura do génio, do visionário e do excluído. A natureza deixa de ser apenas objeto de representação e converte-se em interlocutora do sentimento, da imaginação e do infinito.

O Realismo reage contra a idealização romântica, voltando-se para o trabalho, a pobreza, a cidade, os conflitos sociais e a vida quotidiana. Ambos os movimentos, porém, procuram ultrapassar uma realidade considerada mutilada: o Romantismo pela imaginação; o Realismo pela revelação das relações sociais ocultas.

6.5.8 Modernismo e vanguardas — A crise e a libertação da forma

A modernidade artística põe em causa a representação tradicional. Fotografia e cinema libertam parcialmente a pintura da obrigação de reproduzir o visível. Impressionismo, expressionismo, cubismo, abstracionismo e surrealismo exploram novas relações entre perceção, matéria, espaço, tempo e subjetividade.

As vanguardas pretendem aproximar arte e vida, destruindo as convenções da própria instituição artística. O ready-made mostra que um objeto pode tornar-se obra através da deslocação, da escolha e do contexto institucional.

A chamada «crise da forma» não significa desaparecimento da forma. Significa a crise de uma forma única, estável e normativa. A forma multiplica-se: pode ser fragmentação, ritmo, montagem, gesto, objeto encontrado, acontecimento ou provocação.

6.5.9 Arte do pós-guerra e pós-modernidade — Corpo, conceito e instituição

Depois de 1945, a obra deixa frequentemente de coincidir com um objeto permanente. Performance, instalação, arte conceptual, minimalismo, pop art, vídeo e land art transformam em matéria artística o corpo, o espaço, a linguagem, o território e o próprio tempo.

A crítica feminista, pós-colonial e institucional interroga quem pode ser artista, quem é representado, quem possui as obras e quem controla museus, cânones e mercados. A arte torna visíveis as relações de poder que sustentam a sua própria existência.

A pós-modernidade questiona as narrativas de progresso artístico e favorece a citação, a apropriação, a ironia e a mistura de estilos. A novidade absoluta dá lugar à recomposição convolutiva de imagens e tradições anteriores. (Ver destruição dos Buhddas de Bamyan)

6.5.10 Arte contemporânea e global — Compor relações

Na arte contemporânea, a obra pode ser objeto, processo, encontro, arquivo, investigação, ação política ou intervenção ecológica. Muitas práticas procuram criar relações entre comunidades, territórios, memórias, seres vivos e instituições. Outras degeneram em decoração

A globalização multiplica os centros de criação, mas não elimina as desigualdades do mercado, dos museus e das bienais. A oposição entre arte ocidental e artes periféricas torna-se insuficiente. Fala-se de reconhecer temporalidades, tradições e critérios artísticos diferentes, mas a arte indo-europeia continua a ser referência. 

A arte relacional não deve, contudo, ser julgada apenas pela criação de encontros: também é necessário perguntar que relações produz, quem participa, quem fica excluído e que transformações realmente provoca.

6.5.11 Arte digital e inteligência artificial — Formas em convolução

A criação digital substitui parcialmente o objeto estável por processos, códigos, interfaces e redes. A obra pode modificar-se em função dos dados, dos utilizadores e do ambiente. A autoria distribui-se entre artistas, programadores, dispositivos, bases de dados, algoritmos e públicos.

A inteligência artificial intensifica os problemas da autoria, da imitação e da originalidade. Os modelos geram imagens a partir de vastos arquivos de obras anteriores, tornando visível o caráter relacional de toda a criação, mas também os conflitos relativos ao consentimento, à remuneração, à propriedade e à homogeneização estética.

A questão deixa de ser apenas «quem criou esta obra?» e passa a incluir: que rede de relações, trabalhos, materiais, energias e decisões tornou possível esta forma?

6.5.12 A arte numa filosofia convolutiva

A obra é uma concrescência: recebe uma multiplicidade de elementos e compõe com eles uma forma nova. Cada obra preende outras obras, técnicas, tradições e acontecimentos; seleciona algumas relações, exclui outras e transmite ao futuro uma possibilidade de sentir.

A história da arte não deve ser apresentada como sucessão linear de estilos, culminando inevitavelmente na arte contemporânea. É uma história de heranças, ruturas, sobrevivências, recuperações e cruzamentos. Formas antigas permanecem ativas dentro de formas novas.

A arte é convolutiva porque envolve o passado, reorganiza o presente e propõe modos possíveis de futuro, sempre à procura de rostos. Não se limita a representar um mundo já existente: participa na composição dos mundos em que podemos habitar.

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